Espaços de encontro: corporeidade e conhecimento |
Margarida Serrão 1 Wilson Costa 2 |
À educação cabe uma missão ambígua: preparar a criança e o jovem para a convivência humana e, portanto, para as relações sociais, o que implica a introjeção das regras e dos valores convencionados e aceitos coletivamente, reproduzindo os já existentes. Ao mesmo tempo, espera-se das crianças e dos jovens as mudanças e a quebra das tradições. Nos tempos em que imperam o pragmatismo, a cultura do lucro a qualquer custo, a exacerbação do produto, é preciso resgatar um ensino em que o educador ocupe um lugar que possibilite navegar pelo conhecimento ao sabor dos ventos, sem ter a intenção de manipular, fazer render, obter uma utilidade imediata. É essencial que os educadores reencontrem o prazer de compartilhar com seus alunos a alegria de aprender, de tomar decisões em grupo sobre a organização de atividades, de discutir sobre regras de convívio e de trabalho, e de dividir as responsabilidades para o alcance das metas individuais e coletivas. Com o gradual comprometimento dos alunos com os processos de planejamento e de gerenciamento das atividades, a avaliação torna-se contextualizada e pode ser entendida na sua condição de verificar o que foi alcançado e de contribuir para a reorientação do planejamento dos próximos passos. No caminho para a construção de relações mais favoráveis ao trabalho educativo, deve-se considerar o sujeito a partir do seu meio, de sua história e de suas aprendizagens atuais. Agindo desta maneira, o aluno percebe-se acolhido e aceito na sua condição de indivíduo histórico. A consciência é uma totalidade complexa formada por cognição, motivações e sentimentos emocionais (Vygotsky, 1993). A pressão pela homogeneização a que estamos submetidos na pós-modernidade, muitas vezes, leva o professor a tratar o seu aluno como objeto da pedagogia e da psicologia, esperando respostas que devem estar de acordo com padrões predeterminados pela mídia. É preciso considerar o aluno-sujeito, aquele que deve ser provocado a resistir à objetivação e à mecanização que o mundo do consumo impõe. Para tornar esse resgate possível, é necessário pensar em escolas menores, descentralizadas, regionalizadas, ligadas às comunidades de bairro, sustentadas pela cultura local, não com vistas a um fechamento, mas para ganhar o mundo a partir das suas próprias raízes, construindo o conhecimento a partir de um saber existente e significante para seus alunos. Quando avaliamos as dificuldades da escola e, principalmente, as encontradas pelos professores para desenvolverem os processos de ensino-aprendizagem, é necessário refletir sobre a sua atualidade, no que tange às competências e condições essenciais para que ela possa desempenhar o seu papel de mediadora com diferentes linguagens, conhecimentos e com a diversidade de grupos sociais e seus respectivos códigos. É necessário reconhecer que, mesmo em condições adversas de trabalho, muitos docentes promovem um ensino de qualidade, contextualizando a realidade de crianças e jovens, dando mostra de que, entre o impossível e o necessário, muita coisa pode ser feita. Existem diferentes desafios para a realização de um trabalho que discuta a importância da educação para a solidariedade, para a convivência, para o conhecimento de nossa realidade cultural, e que promova a postura crítica dos alunos, quando, por exemplo, os meios de comunicação de massa incitam, com excelente resultado, o imediatismo, o individualismo e o consumo. A vida nos dias atuais – num mundo cada vez mais baseado na informação e no conhecimento, numa sociedade mais aberta e competitiva, com os meios de comunicação tornando próximos os acontecimentos no mundo – mostra-nos, de maneira explícita, que a formação educacional básica e cultural é um dos fatores fundamentais para o alcance de melhores condições profissionais no futuro. Certamente, esta realidade aumenta a pressão sobre os profissionais que atuam na escola. “A escola tem de ser a escola do sim e do não, onde a prevenção deve afastar a necessidade de repressão, onde o espírito de colaboração deve evitar as guerras de poder ou competitividade mal-entendida, onde a crítica franca e construtiva evita o silêncio roedor ou a apatia empobrecedora e entorpecedora”( Alarcão, 2001, p. 17). A estrutura escolar permanece concebida em torno dos seguintes princípios: homogeneidade, segmentação, seqüencialidade e conformidade (Roldão, 2000). Estes princípios imobilizam a riqueza presente na heterogeneidade dos públicos que a freqüentam e de seus saberes e fazeres, discriminando-os pela “ineficiência” de suas respostas às expectativas institucionais, engendradas naqueles princípios. O reencontro com nossas raízes culturais fornece o lastro fundamental sobre o qual se ergue nossa identidade, individual e coletiva. Ter história é estar inserido numa ordem temporal, numa cadeia de significados e significantes, fazendo parte de um tempo que nos precedeu e de outro que nos sucederá. Fazer parte de uma história é reconhecer um passado e projetar-se num futuro. É ter raízes e asas. Raízes e asas a partir de um corpo habitado por um sujeito que quanto mais se orgulha de sua história – individual e coletiva – mais se apropria de seu território, mais consciência tem de seus contornos, de seus limites e de suas possibilidades. Como diz Maria Cristina Kupfer, em seu livro Educação para o Futuro , se o professor não estivesse tão preocupado em responder para que serve aquilo que ensina, poderia dizer ao seu aluno: “Tudo isso não tem mesmo que significar nada, ninguém sabe de antemão onde um estudo ou as notas musicais ou as palavras vão nos levar. Suporte não saber o que esse saber significa(...), permita que esse saber venha a produzir os efeitos que apaziguam – ou enlouquecem –, não procure saber por quê, pois isto é defensivo e faz frear a busca, jogue-se no rio, molhe-se sem parar para olhar o que está acontecendo com suas roupas.” O que está sendo dito é que se o aluno estuda pela obrigação de alcançar um resultado preestabelecido, ele aprende muito pouco. Não há espaço para o encantamento e a magia da descoberta e da criação. Por uma parte todo sentimento, toda emoção tende a manifestar-se em determinadas imagens concordantes com ela, como se a emoção pudesse eleger impressões, idéias, imagens congruentes com o estado de ânimo que nos dominasse naquele instante. Bem sabido é que quando estamos alegres vemos com olhos totalmente distintos de quando estamos tristes (Vygotsky, 1997, p.21). Uma vez que as contribuições de diferentes campos do conhecimento – psicologia, sociologia, pedagogia, psicomotricidade, filosofia – apontam para a existência das inter-relações entre o movimento, os processos de representação simbólica, as regras e as emoções, é valido questionar porque durante tanto tempo a escola não se valeu do potencial das atividades lúdicas e expressivas para o desenvolvimento cultural, social, cognitivo e afetivo de seus alunos. Alguns estudos apontavam que a brincadeira era uma atividade improdutiva, por não apresentar resultados objetivos e, em muitas ocasiões, favorecer a reprodução de atitudes indesejáveis aos espaços escolares, classificados como sérios, onde a atenção e a dedicação não poderiam conviver com as atitudes e expressões decorrentes das atividades lúdicas. Quando observamos o manancial de elementos conceituais, atitudinais e procedimentais pré-sentes na estrutura das atividades lúdicas, artísticas e de movimento e expressão, descortinam-se possibilidades de trabalho educativo, inclusive para os conteúdos do ensino formal. Atualmente, grande parte destas atividades lúdicas é praticada fora da escola, e é, em sua maioria, de domínio de meninos e meninas que fazem parte das camadas mais pobres das grandes cidades. Como estas atividades e eventos são praticados em espaços abertos, e estes se encontram cada vez mais reduzidos devido à falta de segurança e de políticas efetivas que estimulem a prática dessas atividades, apresenta-se a oportunidade de validarmos as expressões culturais como conteúdo fundamental para a formação do sujeito histórico crítico e, ainda, de se discutir o papel e a função da escola, como um espaço público de prática do conhecimento e como um lugar promotor de encontro entre o indivíduo e a sua identidade cultural. Nada mudou, a força da desigualdade social subtrai cada vez mais os espaços de inclusão para a população menos favorecida e destina o excluído à sombra da sociedade. Aos pobres restam os cantos, as favelas, vielas, as sobras, os subempregos, as escolas “sucatadas” e as armas para defender o tráfico de drogas. A imagem de si constitui-se a partir dos contextos sociais. Logo, quando o processo é observado pela ótica de como a sociedade vê a população excluída, esta geralmente é considerada como sem produto, ou seja, carente. Existe uma falta de reflexão sobre as potencialidades desta população que, vivendo em condições tão adversas, apresenta soluções cooperativas para a sobrevivência em questões de habitação, alimentação, adoção, resistência cultural e no enfrentamento da violência praticada pela polícia e pelas discriminações de várias espécies. Estas soluções criativas são traços culturais próprios de populações em situação de pobreza e miséria, que demonstram, além de cooperação e solidariedade, ações inteligentes, fato não identificado nem significado por grande segmento de pessoas e instituições que só consideram o que o pobre “não tem” e “não é”. Cultura não tem nada a ver com doutorado; cultura é uma questão de sensibilidade e de valores subjetivos. Por exemplo, a palavra inteligente derivada do latim ‘intus legeri': aquele que é capaz de ler por dentro. Existem pessoas analfabetas que são sumamente inteligentes, porque captam pessoas e situações por dentro; isso é cultura (Frei Beto, 2003, p.110). O olhar estigmatizante das discriminações que recaem sobre os excluídos determina uma imagem difícil de se romper, de se desvencilhar: o lugar da incapacidade e da exclusão. Em contrapartida, as ausências de bons afetos e de políticas que atendam às necessidades básicas, sendo estas de responsabilidade fundamental do Estado, defendem-se e reafirmam este olhar condicionante, resistindo a tudo que não seja realmente interessante, interessado e estável o suficiente para operar uma mudança das condições subumanas a que estão expostos. Estudos com pessoas em situação drástica de exclusão demonstram a dimensão ético-política de seus sofrimentos. Moradores de favelas não limitam suas necessidades à moradia; clamam por dignidade como na queixa comum de que: “as pessoas passam por mim e não me vêem”; “quero me sentir gente”. As mães e os adolescentes pobres apontam a escola como fonte de sentimentos negativos: tensão, ressentimento, desqualificação e expulsão. Ao mesmo tempo, a definem como uma necessidade fundamental, por ser a única esperança de tirar as crianças das ruas e dessas mudarem de vida. Talvez por isso ela seja a instituição mais apontada como geradora de sofrimento nas pesquisas (Bader Burihan Sawaia, 2003, p. 57). Dentre as instituições sociais, a Família, a Escola e a Sociedade Civil Organizada desempenham importante papel nas discussões sobre quais bases educacionais e ideológicas devem ser estabelecidos os paradigmas para uma educação que ultrapasse a dimensão dos currículos previstos para a educação básica, e alcance a amplitude de uma visão voltada para o exercício da cidadania e que seja humanizadora. A formação de redes entre estes atores sociais pode contribuir decisivamente para a mobilização da sociedade em busca da operação de mudanças significativas neste cenário. O objetivo desta série é socializar as discussões acerca dos valores e sentidos atribuídos historicamente à corporeidade e ao conhecimento, revelando seu caráter irredutível e indissociável e sua prática nos espaços formais e informais de educação. Destacando os elementos conceituais, os valores e as diferentes categorias de arte, movimento e expressão presentes na estrutura das atividades lúdicas, a série ressalta a importância das trocas entre o adulto e a criança no início da infância e situa o lugar ocupado pela brincadeira no desenvolvimento. Ao abordar as relações do sujeito com a diversidade cultural, principalmente no convívio com as diferenças, retoma a unicidade do indivíduo frente às aprendizagens, recorrendo ao valor para a qualidade da internalização destas quando se apresentam contextualizadas e significativas para o indivíduo. Finalizando, aborda o investimento da Sociedade Civil para o enfrentamento das desigualdades sociais, no âmbito das redes de convivência, tendo como objetivo contribuir para a sociedade, construindo conhecimentos e práticas educativas e sociais e, ainda, na proposição de políticas públicas para o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Temas que serão debatidos na série: Espaços de encontro: corporeidade e conhecimento , que será apresentada no programa Salto para o Futuro/TV Escola, de 16 a 20 de maio de 2005: PGM 1: O Eu e o Outro: parceiros essenciais “Encontro de dois: Quando estiveres perto, arrancarei os meus olhos e os colocarei no lugar dos teus. Tu arrancarás os teus olhos e os colocarás no lugar dos meus. Então, eu te olharei com teus olhos e tu me olharás com os meus.” (Moreno) Constituída na história do sujeito que se move e é mobilizado pelas incessantes necessidades geradas pelas emoções e suas implicações interpessoais e construída no decorrer de seu desenvolvimento por intermédio dos diálogos tônicos com a mãe, ou com quem tenha desempenhado a função materna, a corporeidade traduz o seu sujeito pela sua originalidade presencial, definidora da identidade. A condição do sujeito dialoga sempre com a sua história, construída junto aos outros seus, mesmo que não sejam consangüíneos, e é constituída de afetos e de conhecimentos gerados pelas suas interações – emocionais/afetivas, cognitivas e corporais – com o mundo dos objetos e do conhecimento. A ação mediadora exercida pelo adulto entre a criança e o mundo é fundamental para as noções que esta construirá, e se manifestará nas suas interações corporais expressivas e verbais com os outros e os objetos. Logo, torna-se central observarmos como se constitui o sujeito. Qual a importância dos cuidados e afetos dispensados ao seu desenvolvimento nos primeiros anos de vida? Que papel está reservado aos responsáveis, professores e sociedade nessa construção? Por que algumas crianças e jovens parecem lidar com situações adversas e outros a elas sucumbem? Em que medida é possível intervir no desenvolvimento e na subjetividade de nossos alunos enquanto indivíduos e cidadãos? Como organizar os ambientes e sobre o que se deve instruir as pessoas diretamente envolvidas na educação de crianças nos primeiros anos de vida e na adolescência? Neste programa, abordaremos os processos de humanização e formação do indivíduo durante a infância e a adolescência, ressaltando o papel constitutivo dos adultos significativos (pais e educadores) nesses processos. Também analisaremos o conceito de resiliência e de que modo as pesquisas realizadas sobre o tema com crianças e jovens podem nortear o relacionamento entre educadores e educandos. PGM 2: Eu comigo mesmo: o brincar como espaço de construção da subjetividade “O brincar tem um lugar e um tempo... Para dominar o que está fora, é preciso fazer coisas, não só pensar ou desejar, e fazer coisas leva tempo. Brincar é fazer.” (D.W. Winnicott) O encontro da criança consigo mesma se faz através do brincar. É o lúdico que possibilita a elaboração de suas vivências e sentimentos cotidianos. A compreensão dos acontecimentos que lhe dizem respeito se torna possível pelo reviver que o seu brincar produz, expressando o que ela ainda não é capaz de formular pela linguagem e encontrando alternativas para solucionar impasses da realidade. O adolescente, por sua vez, já é capaz de refletir sobre si, seus atos, seu entorno, sua existência, o sentido da mesma e sua finitude. Contudo, necessita de um interlocutor que lhe possibilite reconhecer-se, inicialmente entre iguais (o grupo), depois como diferente entre iguais, e, finalmente, como único, mas pertencendo ao conjunto de cidadãos, agentes de transformação. A escola pode facilitar o encontro da criança e do jovem consigo mesmos ou afastá-los de si mesmos. Como fazer do espaço escolar um espaço propiciador do brincar? De que forma os espaços de educação informal – ONGs – , com a oferta de atividades de arte-educação, podem contribuir para o fortalecimento da auto-estima e do auto-reconhecimento? E que danos podem ocorrer às crianças a quem isto não se torna possível? Trataremos neste programa do brincar como espaço privilegiado para o desenvolvimento humano, no qual ocorrem as trocas essenciais à construção da subjetividade e à transmissão dos valores éticos e culturais. PGM 3: O Eu, o Outro e as diferenças individuais e culturais “Quando olhamos, por alto, as pessoas, ressaltam suas diferenças: negros e brancos, homens e mulheres, seres agressivos e passivos, intelectuais e emocionais, alegres e tristes, radicais e reacionários. Mas, à medida que compreendemos os demais, as diferenças desaparecem e em seu lugar surge a unicidade humana: as mesmas necessidades, os mesmos temores, as mesmas lutas e desejos. Todos somos um” (William Schultz). O exercício da tolerância e da cidadania brota da relação do indivíduo com ele mesmo, que passa por pessoas próximas, especiais, que possibilitam a sua existência, para então, expandir-se até os outros. A forma como os responsáveis, amigos e professores participam da educação da criança colabora fundamentalmente para a sua construção das noções e valores sobre as coisas, pessoas, crenças, particularidades históricas e culturais. Se as relações iniciais incentivam a curiosidade em relação à descoberta do mundo e à diversidade das características humanas, grandes serão as chances de o indivíduo estabelecer convívios sensíveis e interessados, que levem em conta as riquezas presentes na pluralidade manifestada na vida humana. Eis o grande desafio do ser humano: compreender que todas as pessoas são iguais em relação aos direitos da existência e diferentes na maneira de viver a sua existência. De que maneira a escola pode tornar-se um território favorável à aprendizagem do convívio com a diferença? Este programa destaca a importância social da escola na promoção do convívio com a diferença, ressaltando o caráter humanizador da educação e o valor do trabalho com a pluralidade cultural. PGM 4: Corporeidade e conhecimento: a unicidade do indivíduo frente à diversidade de aprendizagens “O professor pensa ensinar o que sabe, o que recolheu dos livros e da vida. Mas o aluno aprende do professor não necessariamente o que ele quer ensinar-lhe, mas aquilo que quer aprender. Assim, o aluno pode aprender o reverso ou algo diferente do que o professor ensinou-lhe. Ou, mais ainda, aquilo que o professor nem sabe que ensinou, mas o aluno reteve. O professor, por isso, ensina também o que não quer, algo de que não se dá conta e que passa silenciosamente pelos gestos e pelas paredes da sala...” (Affonso Romano de Santanna). O pensamento se constrói a partir do movimento e das linguagens expressivas. O movimento corporal no espaço e no tempo tem o sentido próprio de cada sujeito, traduzido no estilo pessoal. A exploração do espaço pelo corpo, na ontogênese, é intermediada pelo olhar, pelo toque e pela palavra orientadora do outro. Se o pensamento se constitui a partir do movimento e este se opera corporalmente, quais são as implicações da ausência de exploração dos espaços e dos objetos na constituição de aprendizagens que deles dependem e de que maneira as vivências lúdicas favorecem a constituição da corporeidade? Se aprender requer mobilidade, quais as implicações da ausência de situações dinâmicas contextualizadas para a constituição de aprendizagens significativas? Como aprender com corpos estáticos, presos a cadeiras enfileiradas nas salas de aula? Como incluir as vivências corporais no dia-a-dia da aprendizagem escolar? Por que as escolas não discutem sobre a importância político-pedagógica das aprendizagens de arte-educação – teatro, dança, música, artes visuais, brinquedoteca – e de movimento – esportes, lutas, jogos e brincadeiras tradicionais –, explorando devidamente os elementos conceituais e atitudinais dos seus conteúdos? Neste programa, abordaremos estas questões, destacando o valor destas atividades para a construção da subjetividade e para a construção de valores estéticos e éticos. PGM 5: Redes de convivência e de enfrentamento das desigualdades “Estão fechando os sentidos do ser humano, cada vez requer-se mais intensidade (...). Não vemos o que não tem iluminação da tela, nem ouvimos o que não chega a nós carregados de decibéis, nem sentimos o cheiro dos perfumes. Temos tempo para reverter esse abandono e esse massacre. O ser humano sabe fazer dos obstáculos novos caminhos, porque, para a vida, lhe basta o espaço de uma greta para renascer” (Ernesto Sábato. A Resistência . Buenos Aires, Seix Barral, 2000). As atividades de movimento e expressão, lúdicas e artísticas, existem na cultura humana desde seu início e depõem sobre as relações do homem com os contextos históricos, culturais, espirituais e sociais, traduzindo as formas de organização social de poder e das relações de trabalho. Por um lado, estas atividades de natureza estética e política sempre proporcionaram a expressão de idéias, sentimentos e beleza, e destinavam-se ao ócio. Por outro lado, também eram vistas como inúteis, sem caráter de seriedade e utilidade para o trabalho. No decorrer dos séculos, as instituições educacionais e para a formação cível e militar foram absorvendo as técnicas empregadas pelos artistas populares, adaptando-as ao seu interesse, moldando o cidadão de acordo com as suas necessidades políticas, militares e econômicas. Atualmente, ouve-se falar que crianças e jovens pobres devem dançar, cantar, jogar e fazer arte para ter um futuro melhor. Esta expectativa não só gera uma ilusão quanto destitui todo o caráter de respeito à criança e ao jovem como um ser histórico, que deve ser ouvido e considerado no seu momento atual e cobrado pelos seus deveres de maneira adequada aos seus direitos, no âmbito da lei e das regras educativas institucionais. Hoje, muitas instituições do terceiro setor empreendem seus esforços para o resgate da auto-estima e para o auto-reconhecimento de crianças e jovens, através da oferta de atividades lúdicas e expressivas, investindo no seu poder de gerar trocas interpessoais e valorizar a expressão pessoal. Estes movimentos têm constituído redes para o enfrentamento às violações de direitos e para a criação de espaços culturais, gerando tecnologia social e buscando a valorização destas atividades para a educação e inclusão de crianças e jovens oriundos da população de baixa renda. Este programa vai abordar a riqueza deste trabalho e apresentar as contribuições que as redes têm dado à sociedade e ao Estado para o enfrentamento das desigualdades sociais. Referências bibliográficas
Notas
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| Eu comigo mesmo: o brincar como espaço de construção da subjetividade | ||||||||||||||||
O PAPEL DO LÚDICO NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E DO PSIQUISMO |
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Carlos Alberto de Mattos Ferreira 2 |
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Brincar deriva do latim vinculum , que significa “laço, união e criação de vínculos”. Em diversos idiomas, como o alemão, o inglês, o francês e o espanhol, os termos brincar e jogar são equivalentes, enquanto que na língua portuguesa detecta-se uma divisão. A construção da atividade lúdica, presente no jogo e no brinquedo, tem sido objeto de estudo de autores em diversas áreas do conhecimento, em especial daqueles que são interessados em sua gênese, no que se refere à infância e à cultura. Em nosso estudo, propomos apresentar três correntes importantes – no campo da construção do psiquismo – que estudam as bases da atividade lúdica, a saber: a psicogênese piagetiana, a perspectiva sócio-histórica da escola russa, em Vygotsky e Leontiev, e as contribuições psicanalíticas em Freud, Winnicott e Lacan. Partindo do princípio formulado pelo antropólogo Johan Huizinga (1938-2001), o jogo pode ser considerado como universal, encontrando-se presente em todas as culturas conhecidas. A escolha das três correntes que estudam o brincar e o jogo, que serão analisadas neste texto, dizem respeito aos estudos que mais influenciam e dão suporte teórico e prático aos profissionais e pesquisadores acerca do papel desempenhado pela função da construção lúdica na organização psíquica. O ato de brincar e o jogo infantil nem sempre têm seus respectivos valores reconhecidos e compreendidos, quando o assunto é o desenvolvimento infantil e a construção de subjetividades. Compreende-se que, por meio das atividades lúdicas, o pequeno infans – desprovido de palavras – inicia sua vinculação com o mundo e, em função das experiências desfrutadas, passa a construir suas representações de si, do outro e da realidade apreensível em seu contexto sócio-histórico-afetivo. Pode-se inferir, ainda, que a partir da ação e da linguagem por meio do lúdico, a criança constrói suas estratégias, o que lhe permite ser reconhecida como sujeito que recria a realidade, que busca escapes ilusórios das determinações históricas, num esforço de recuperação das perdas vivenciadas em função de reconstruir sua existência e de encontrar um sentido para a vida. De acordo com as linhas que propomos apresentar, constata-se que a primazia da ação e/ou da linguagem aparece alternada em função dos suportes teóricos que sustentam a idéia de uma atividade lúdica que seja estruturante de subjetividades e organizadora de corporeidades. Nesse prisma, subjetividades e corporeidades, constituídas sob a ótica do lúdico, por meio da ação e da linguagem, serão estudadas em três correntes principais: a psicogênese piagetiana, a sociogênese vygotskiana e a psicanálise. 1. A psicogênese piagetiana (teoria cognitiva)A psicogênese piagetiana fundamenta-se nos princípios construtivistas e interacionistas do sujeito com o objeto da aprendizagem, de forma a poder estabelecer critérios de hierarquia para internalização das estruturas do conhecimento. Piaget cria uma Epistemologia Genética, que tem por objetivo estudar a gênese dos processos com os quais a criança aprende a aprender. O modelo clássico da estrutura dos estágios de desenvolvimento pode ser descrito no seguinte enquadre, articulado aos seus correspondentes lúdicos: ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO / PROCESSO DE CONSTRUÇÃO LÚDICA
O lúdico pode ser compreendido como um processo de construção, cuja base remonta às atividades sensório-motoras que, submetidas ao desenvolvimento da função simbólica e, posteriormente, ao domínio das regras, inscrevem o sujeito no meio social, através do processo de adaptação. Outro quadro que relaciona os estágios anteriores com a construção das regras pode ser demonstrado a seguir:
2. A ótica sócio-histórica de Vygotsky (teoria da mente) O processo de desenvolvimento, em Vygostsky, é observado por meio das transformações produzidas nas Funções Psíquicas Superiores, já mencionadas anteriormente. Essas funções são chamadas “superiores” porque são mediadas pela linguagem e estão em oposição às funções nervosas elementares. O laço familiar, o vínculo cultural, a condição de humano são construídos pelo processo de “aprendizagens” a que o ser humano vai estar submetido desde o seu nascimento. Articulando a relação entre a atividade mediada por signos e instrumentos e a Zona de Desenvolvimento Proximal, Vygotsky (1991,1997) introduz a função lúdica, descrita como brinquedo. O brinquedo, como elemento de acesso à realidade das relações existentes no mundo e como agente do desenvolvimento infantil, contém todas as tendências do desenvolvimento. Em sua atividade lúdica, a criança pode agir dentro de uma esfera imaginativa, produzindo intenções voluntárias e construindo as bases da criação de uma ação planejada. De acordo com a orientação teórica de Vygotsky, todo avanço no processo de desenvolvimento está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, tendências e incentivos. A motivação é sempre relativa à idade da criança: o que motiva um bebê não motiva uma criança de quatro anos. As tendências são uma síntese das necessidades e dos desejos da criança, tentando tornar realizável o irrealizável, tanto por não poder satisfazer imediatamente tais necessidades e desejos, quanto pela impossibilidade de agir num mundo real (dos adultos). Por isso, ela cria o brinquedo. Os incentivos estão vinculados a determinantes externos que são constituídos pelas influências do meio social sobre a criança, em diversas relações de troca, com adultos, outras crianças e outros elementos característicos de cada cultura, como jogos, brinquedos, representações sociais e acesso a diferentes tecnologias, entre outros. Em intercâmbio constante com o seu meio ambiente, a criança, diante do desafio de conhecer-se e de conhecer o mundo, constrói sua compreensão da realidade pela imaginação e que, em sua dimensão pragmática, é constituída na interação com o brinquedo. 3. As correntes psicanalíticasO desejo que dirige o brincar da criança é o de tornar-se adulto. Este desejo é guiado pela ilusão infantil de que no mundo adulto todas as fantasias são possíveis de ser realizadas. O brincar e o jogar das crianças são as estratégias básicas de comunicação infantil, por meio das quais elas inventam o mundo e elaboram os impactos exercidos pelos outros. Freud considera que os principais objetivos da civilização são “produzir conhecimento e capacidade para controlar as forças da natureza” e “criar regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros”. Sobre a agressividade, pode-se dizer que Freud a compreende como uma expressão primária original e “auto-consistente, sendo o maior impedimento à civilização”. E, tal como descrita, encontra-se presente nas diversas atividades infantis, caracterizadas, essencialmente pelo brincar, donde se observa que, independente das formas com que as crianças são educadas, pode-se afirmar que não existe atividade lúdica que não apresente expressões de fantasias agressivas, tais como brincar de guerra, de matar, atirar, ferir e morrer, por exemplo. O jogo e o brinquedo infantis produzem uma área intermediária, onde a criança pode experimentar suas fantasias agressivas sem ser destrutiva com os outros e nem ser destruída por eles. Winnicott considera que crianças “privadas” e “inquietas” são incapazes de brincar. A possibilidade de criar é um estado saudável e a sua impossibilidade, uma submissão, torna-se uma base doentia para toda a vida. Os adultos, em geral, não observam que crianças consideradas como muito obedientes podem estar prisioneiras de uma ação inibitória que as impede de expressar suas emoções e desejos por meio das brincadeiras e da comunicação verbal. O brincar facilita o crescimento e a saúde da criança, conduz aos relacionamentos grupais e é uma forma de comunicação consigo mesma e com os outros. A constituição das subjetividades e as origens da fantasia encontram-se no cerne da organização simbólica dos enigmas fundamentais descritos por Freud: as fantasias da cena primária, da sedução e da castração, que surgem em função dos enigmas da existência, da sexualidade e da diferença sexual. No início da vida, fantasia e realidade se confundem e, através da primeira, a criança cria uma estratégia para compensar, pelo jogo, suas experiências dolorosas, de tal modo que brincar possibilita a realização dos desejos. A saída para os obstáculos impostos pelo mundo encontra uma resolução por meio da fantasia. O brincar e o fantasiar possibilitam a realização de desejos. Como se pode constatar, a atividade lúdica é um elemento básico para a compreensão do conhecimento e do psiquismo humano, merecendo aprofundamento nos estudos e na prática da educação e da clínica. Referências bibliográficas
Notas
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| O Eu, O Outro e as diferenças individuais e culturais |
IDENTIDADE E DIFERENÇA NO COTIDIANO ESCOLAR: PRÁTICAS DE FORMAÇÃO E DE FABRICAÇÃO DE IDENTIDADES DOCENTES |
Elizeu Clementino de Souza 1 |
Sinopse O texto aborda questões relativas à identidade e à diferença no cotidiano escolar e as implicações nas práticas de formação. Busca-se discutir aspectos concernentes à fabricação de identidades docentes e formas historicamente construídas de regulação no cotidiano escolar e no desenvolvimento profissional dos professores, a partir das práticas pedagógicas implementadas na cultura escolar, no tocante à homogeneização das identidades, em negação à cultura da diferença. Neste texto, que visa oferecer subsídios aos debates do terceiro programa da série, pretendo discutir questões teórico-práticas relacionadas à construção da identidade e à vivência das diferenças no cotidiano escolar. Pretendo, também, analisar as implicações da construção da identidade profissional no processo da formação docente e do desenvolvimento profissional de professores, no que se refere às diferenças e a interculturalidade na escola. Vivemos numa sociedade marcada pela pluralidade de imagens e diferenças sociais e culturais. A escola, por sua vez, buscará desenvolver seu projeto pedagógico com ênfase nas diferenças e nas relações que os indivíduos estabelecem consigo mesmos e com os outros. Convém questionar se nós, professores, desenvolvemos nossas práticas tendo em vista a assunção das identidades e o respeito às diferenças. Como podemos viver os projetos de igualdade e do respeito à diversidade, tão presente e marcada na sociedade brasileira? De que maneira a escola pode tornar-se um território favorável à aprendizagem do convívio com a diferença? Compreendo a educação como um processo de autotransformação do sujeito, que envolve e provoca aprendizagens em diferentes domínios da existência, evidenciando o processo que acontece em cada sujeito, traduzindo-se na dinâmica que estrutura ou é estruturada por cada um no seu modo de ser, estar, sentir, refletir e agir. Sendo assim, a educação e, por conseqüência, também a formação não se esbarram na transmissão e aquisição de saberes, na transferência de competências técnicas e profissionais e, tampouco, na assertiva das potencialidades individuais. Filio-me à perspectiva epistemológica da formação experiencial, por entender que a noção de processo de formação que ela implica possibilita o centramento no sujeito na globalidade da vida, entendida como interação da existência com as diversas esferas da ‘con-vivência' como perspectiva educativa e formativa. É na dinâmica da vida e nas histórias tecidas no nosso cotidiano que aprendemos dimensões existenciais e experienciais sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o meio em que vivemos. No entrecruzamento de nossas aprendizagens, a escola exerce um papel singular, visto que neste espaço ‘convivemos' e internalizamos papéis sociais apreendidos no cotidiano familiar. O investimento na formação de professores e no trabalho coletivo na escola poderá possibilitar outras formas de trabalho didático e pedagógico, que contribuam para a reafirmação de identidades, para a vivência, para a tolerância e para o respeito ao exercício da cidadania. Discutir a fabricação da igualdade , tomada aqui como projeto de homogeneização dos indivíduos e da negação das diferenças no espaço da escola , é uma tarefa que exige reafirmação de novas e constantes opções que cruzam e entrecruzam a compreensão do mundo, da vida, das aprendizagens e experiências construídas ao longo da existência. A vivência escolar se entrecruza, no seu cotidiano, com valores produzidos no coletivo e no âmbito social, na medida em que esses valores se modificam de acordo com os condicionantes econômicos, políticos, institucionais, culturais, físico-ambientais e ético-estéticos. Compreendo que é desse entrecruzamento que são apropriados, construídos e reconstruídos diversos processos e formas da vida dos sujeitos como produtores e construtores da história. Por isso, penso que não devemos fechar a noção de “identidade” como algo fixo, imutável e cristalizado, porque significa construção, daí a necessidade de compreendê-la como processo que comporta subjetividades, complexidades, diferenças e não igualdades. É fundamental desconfiar de tudo que é naturalizado, especialmente, em relação às práticas cotidianas engendradas na escola e no espaço familiar, as quais são ancoradas em padrões, envolvendo os sujeitos e reforçando o projeto de igualdade, reforçando a marginalização e escamoteando as diferenças 2 daqueles que transitam e optam por formas de expressão e de manifestação que não se enquadram nas legitimidades sociais e institucionais. Teoricamente, busco em Louro (1997, 1998), Hall (2000) e Silva (1999, 2000) princípios teóricos que me possibilitem apreender conceitos e políticas de sentido sobre a identidade e a diferença no cotidiano escolar, visto que “[...] consideramos a diferença como um produto derivado da identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença [...]” (SILVA, 1999, p. 74-5). Numa outra perspectiva, e no que concerne à fabricação de identidades docentes, busco em Lawn (2000), Moita (1992) e Nóvoa (1992a, b), aspectos teóricos sobre a construção de identidades profissionais e práticas de regulação engendradas nas políticas de formação. Ao abordar a subjetividade e o processo de formação e (auto) formação do “devir professor”, Pereira afirma que: “Quando pensamos a construção das identidades, também somos perseguidos por esse modelo de estabilidade, de harmonia e de cristalização como padrão desejado. A sociedade nos dá, prontas, algumas identidades: homem, mulher, professor, artista, mãe, pai, família, escola etc.” (Pereira, 2000, p. 36). Desta forma, reitera o autor que: “Uma identidade é, nesse caso, uma configuração cristalizada, estereotipada de uma maneira de ser ou um ritmo determinado em responder às figuras demandadas [...]. A institucionalização das identidades é uma forma de homogeneizar o cotidiano e construir os grupamentos e as coletividades [...]” (idem, p. 37). Evidencia-se que a identidade não é uma construção do sujeito por ele mesmo em suas relações individual e coletiva, mas sim uma diferença que o sujeito produz em si. Por isso, a identidade é produzida e forjada conforme os modelos e padrões estabelecidos, como quer a nossa sociedade, com base nas estratégias e estratificações convencionadas socialmente. Ao discutir sobre “Os professores e a fabricação de identidades” Lawn 3 (2000) afirma que a construção e as alterações na identidade são forjadas e governadas pelo Estado, o qual utiliza discursos como forma de controlar as “identidades oficiais”. O discurso revela-se como elemento de governação das identidades oficiais e gerencia as reformas pensadas como estratégias políticas de um determinado momento histórico. O controle da identidade dos professores e o estabelecimento de ações de fiscalização instauram-se como matriz da gestão da profissão, porque a mesma deve refletir e adequar-se ao projeto educacional do Estado e representar a idéia de “identidade nacional e de trabalho” (p. 69), como forma de garantir mudanças no sistema educativo. Evidencia-se que a identidade é produzida e performatizada através do discurso legal, do administrativo e do pedagógico, os quais são expressos através de parâmetros, regulamentos, manuais, portarias, discursos públicos, projetos e programas de formação. A relação posta pelo autor entre a fixação de uma identidade nacional ou oficial e o mundo do trabalho torna-se visível pelos efeitos práticos e ideológicos da administração e da governação dos professores, seja através das políticas de formação, das exigências e ‘competências' requeridas para seleção ou contratação, o que evidencia que “[...] a identidade pode ser um aspecto chave da tecnologia do trabalho [...]” (p. 71). As mudanças e reformas educativas vinculam-se aos modelos político-econômicos e refletem as alterações que são impressas no trabalho docente, relacionando-se às formas de controle sobre a identidade dos professores e as tecnologias impostas pelo trabalho. Historicamente, as questões sobre fabricação da identidade e políticas reguladoras de fronteira são ilustradas pelas lutas e tensões dos professores nos movimentos trabalhistas ao longo do século XX, na vinculação a partidos de esquerda, na eleição ou candidatura de professores e na participação em movimentos sociais. Em diferentes períodos e reformas, a fixação da identidade dos professores, gerenciada através dos discursos, materializa-se nas mudanças e na reestruturação do trabalho. Estruturas e políticas tácitas são pensadas pelo Estado como forma de regulação das identidades dos professores, seja para a manutenção das identidades oficiais ou para o policiamento das fronteiras identitárias. Os professores contrapõem-se, através dos movimentos associativos e sociais da profissão, ao discurso de governação e às políticas de fronteira. A autonomia e o domínio exercido no espaço da sala de aula, assim como o controle por parte do sujeito professor do seu fazer, podem criar dimensões de não subserviência, de oposições e tensões sobre a manutenção e as políticas de fronteiras pensadas e reguladas pela nação, visto que a “[...] existência de professores que não se adequam às identidades oficiais causa pânico. Da mesma forma, as idéias que os professores têm, e as pessoas às quais se associam, também causam pânico [...]” (p. 76). Este princípio configura-se como um dos problemas relacionados à manutenção das fronteiras, estabelecendo dificuldades para controlar e manter fidedignas as identidades oficiais. Novos problemas são impostos cotidianamente à identidade dos professores e às políticas de fronteira. Gerir a identidade docente, através da polifonia de discursos construídos na modernidade – como forma de um novo controle sobre a profissão, ou para as transformações exigidas pela sociedade do aprender a aprender – instala uma nova crise sobre a profissão e os saberes da profissão. As mudanças na forma de pensar e de viver a identidade docente são construídas desde a década de 80, e se consubstanciam na emergência de uma sociedade tecnológica, numa economia globalizada e no acirramento das injustiças e desigualdades entre as pessoas e as nações. Tais mudanças mexem significativamente com a forma de pensar e de exercer a profissão docente, incluindo os formatos de controle e de regulação das identidades. Se nos anos 80 a identidade dos professores representava um domínio sobre o fazer e circunscrevia-se no espaço da sala de aula e na organização da escola, num modelo de descentralização como sinônimo de qualidade, a partir do início dos anos 90 as identidades e os mecanismos de controle são explicitados nas políticas de formação e de certificação, as quais configuram modelos de competências, de uma cultura da excelência e na diversidade de imagens e de representações de professores que é engendrada pelos diferentes modelos de escolarização. Outra vertente de reflexão sobre a identidade é construída na perspectiva dos estudos culturais 4 , apreendendo a identidade como ‘aquilo que é' e a diferença, como o oposto à identidade, como ‘aquilo que não é', visto que ambas estão numa relação de estreita dependência. Ou seja, a forma de expressão da identidade, como fixa e imutável, demarca e escamoteia as relações postas nesta relação, ou como algo que se esgota em si mesmo. “A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistemas de representação. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder” (Silva, 1999, p. 97). Identidade e diferença são produções históricas, resultantes de processos de produção simbólica e discursiva que envolvem poder, saber, disciplinamento, inclusão, exclusão e que se caracterizam em representações. Conforme Louro (1997), “a escola delimita espaços” 5 , os quais são instituídos a partir de símbolos e códigos, mapeando o que cada um pode ou não pode fazer, separando, agregando, elegendo, classificando e legitimando diferenças em suas identidades ‘escolarizadas'. Das representações, sentimentos, gestos e olhares aprendemos, no cotidiano escolar, a construir identidades e diferenças. É nesse movimento de ‘arquitetura' das identidades que busco entender os mecanismos e movimentos pensados ideológica e tacitamente sobre as produções das identidades docentes em suas transformações históricas. Identidades que são reguladas, imitadas, performatizadas conforme os modelos estabelecidos. Para Moita, a identidade profissional “[...] é uma construção que tem uma dimensão espácio-temporal, que atravessa a vida profissional desde a fase da opção pela profissão até a reforma, passando pelo tempo concreto da formação inicial e pelos diferentes espaços institucionais onde a profissão se desenrola [...]” (1992 p. 115-6). A identidade profissional assenta-se em saberes científicos e pedagógicos e tem como referência axiomas éticos e deontológicos. Pode-se apreender que é forjada e performatizada a partir do contexto e dos interesses postos historicamente como forma de controle e de organização das mudanças educativas ou, ao contrário, como forma de não assujeitamento ao estabelecido. Ainda assim, a autora reitera que a identidade profissional: “É uma construção que tem marca das experiências feitas, das opções tomadas, das práticas desenvolvidas, das continuidades e descontinuidades, quer ao nível das representações, quer ao nível do trabalho concreto” (idem, p. 116). Conforme Nóvoa (1992b, c), a identidade é entendida como um lugar de lutas, tensões e conflitos, caracterizando-se como um espaço de construção do ser e estar na profissão, que parte do pessoal para o profissional e vice-versa. “[...] É um processo que necessita de tempo. Um tempo para refazer identidades, para acomodar inovações, para assimilar mudanças” (1992b, c, p. 16). As histórias de vida, as representações e as narrativas de formação marcam aprendizagens tanto na dimensão pessoal, quanto profissional e entrecruzam movimentos potencializadores da profissionalização docente, porque “[...] um professor tem uma história de vida, é um ator social, tem emoções, um corpo, poderes, uma personalidade, uma cultura, ou mesmo culturas, e seus pensamentos e ações carregam as marcas do contexto nos quais se inserem” (Tardif, 2000, p. 15). Nesta perspectiva, a epistemologia da prática, os saberes e a história de vida são significativos para a aprendizagem profissional. Não podemos separar os saberes das histórias, dos contextos que os instituem, modelam e definem, visto que eles implicam a forma de ser e estar na profissão e demarcam possibilidades de trabalhar o desenvolvimento pessoal e profissional do professor, bem como potencializam práticas pedagógicas centradas na pedagogia da diferença. Referências bibliográficas
Notas
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| Corporeidade e conhecimento: a unicidade do indivíduo frente à diversidade de aprendizagens |
Wilson Costa 1 |
Este texto, que oferece subsídios para as discussões do quarto programa da série, tem por objetivo contribuir para a discussão a respeito dos processos que ocorrem no desenvolvimento, que apontam e significam a unicidade do sujeito nos processos de aprendizagem , considerando a importância do movimento para o conhecimento da realidade dos objetos e dos espaços, como também das linguagens expressivas e artísticas para a compreensão das relações humanas subjetivas, cognitivas, interpessoais e políticas. Inicialmente, este texto aborda a função e a importância das relações interpessoais para a constituição do sujeito e de sua corporeidade, nos processos de desenvolvimento, aprendizagem e nos diferentes espaços sociais, dentre estes, o escolar. Num segundo momento, aborda as relações entre corporeidade e ideologia e corporeidade e ludicidade, significando as suas implicações na construção de conhecimentos escolares e informais. Aponta para uma abordagem construtivista de aspectos lúdicos, essenciais para o resgate do interesse dos alunos sobre os conhecimentos escolares, e aborda também as possibilidades de estudo sobre os elementos conceituais e atitudinais presentes nos conteúdos das áreas do ensino formal e das linguagens de movimento e da expressão artística. Finaliza com a discussão sobre a importância destas atividades para favorecer o envolvimento dos alunos com dificuldades de aprendizagem. Espaços Corporais: Afetivo, de Linguagem expressiva e Cidadão O que mobiliza o sujeito e o coloca em movimento? O que o motiva a buscar permanentemente a realização de satisfações imediatas? É a emoção que coloca em movimento a sua globalidade, na busca da atualização de seus desejos e das suas necessidades. O deslocamento físico do corpo e do seu sujeito no espaço remete a uma condição motriz, sempre impregnada de um sentido particular, um desejo, uma intenção expressa numa atitude manifesta em sua tonicidade – tônus residual, tônus de postura, tônus de sustentação (Wallon, 1971, p.132). Chamo a atenção para a dimensão subjetiva que, amalgamada com a dimensão biológica, se presentifica em cada ação do sujeito no mundo, especialmente pelo seu próprio corpo. A condição do sujeito dialoga sempre com a sua história, construída junto aos outros seus, mesmo que não sejam consangüíneos, constituída de afetos e conhecimentos gerados pelas suas interações – emocionais/afetivas, cognitivas e corporais – com o mundo social, dos objetos e do conhecimento. A ação mediadora exercida pelo adulto entre a criança e o mundo é fundamental para as noções da realidade que esta constituirá e se expressará de forma singular nas suas interações corporais, expressivas e verbais com os outros, os ambientes e os objetos. O caráter cultural e prazeroso das atividades lúdicas e expressivas, de acordo com as escolhas da abordagem pedagógica de cada instituição, pode exercer papel fundamental na formação de crianças e jovens. O conceito de imagem corporal remete às relações existentes entre as percepções que a criança gradualmente constitui do seu corpo e a idéia que constrói de si mesma. Esta construção é constituída por elementos subjetivos e objetivos, possibilitando a formação das percepções sobre sua personalidade, pelas atitudes, sentimentos, idéias e nas relações interpessoais. Logo, quando trabalhamos a corporeidade, atuamos sobre a imagem corporal da criança e incidimos sobre a sua identidade. Assim, as noções do esquema e da imagem corporal evoluem simultaneamente, sendo que o esquema se estrutura pela internalização das representações do corpo construídas nas ações, e a imagem se organiza a partir da crescente consciência sobre as interações com os outros, em que são atribuídos sentidos e valores às atitudes da criança, determinando os traços da sua personalidade. As significações e os sentidos atribuídos pelas pessoas e ambientes às ações da criança interferem nos esquemas motores e expressivos em formação, imprimindo uma imagem do sujeito no âmbito social. Neste momento, é fundamental analisarmos o papel dos espaços que a criança freqüenta e nos quais interage, além da família, durante a sua vida: a escola e a sociedade. No decorrer da vida, as aprendizagens e o desenvolvimento ocorrem tanto fora quanto dentro da escola ou de outros espaços educacionais, como pressupõe a corrente sócio-histórica. O laço familiar, o vínculo cultural, a condição de humano é construída a partir das influências de “aprendizagens” a que o ser humano vai estar submetido desde o seu nascimento. Desse entendimento, conclui-se que o contexto social e o momento histórico criam condições que geram “aprendizagens” específicas de um determinado meio, para que, num contexto de interação, a criança possa construir seu processo de desenvolvimento. O desenvolvimento, descrito na obra de Vygotsky: Começa com a mobilização das funções mais primitivas (inatas), com o seu uso natural. A seguir, passa por uma fase de treinamento, em que, sob a influência de condições externas, muda sua estrutura e começa a converter-se de um processo natural em um “processo cultural” complexo, quando se constitui uma nova forma de comportamento com a ajuda de uma série de dispositivos externos. O desenvolvimento chega, afinal, a um estágio em que esses dispositivos auxiliares externos são abandonados e tornados inúteis e o organismo sai desse processo evolutivo transformado, possuidor de novas formas e técnicas de comportamento (VYGOTSKY & LÚRIA, 1996, p. 215, apud Ferreira, 2000, p. 12). Os pais, familiares, colegas e educadores participam da vida da criança, estabelecendo relações que geram conhecimentos, habilidades e valores. A escola é o espaço social eleito para ampliar o espaço das relações, para além da família, introduzindo novos elementos na rotina da criança, dentre eles a figura do professor, que exerce uma função fundamental no acolhimento, nos cuidados, na formação e no exercício da cidadania. A postura ideológica assumida pela Instituição Escolar frente às questões de natureza política e humanitária define a sua atualidade frente à obviedade de sua função social. As aprendizagens sobre as relações interpessoais, no seio institucional, implicam a integração ao contexto social, onde o indivíduo é convocado a submeter, em determinadas ocasiões, os seus impulsos e desejos particulares, em respeito a regras coletivas estabelecidas. Aqui cabem algumas considerações sobre o lugar do educando no convívio com a escola, como instituição que exerce uma função social de importância na constituição de uma identidade moral do sujeito no grupo, que remete à constituição da imagem corporal, ou seja, a imagem que este forma de si mesmo. Como estimular no indivíduo o hábito de obedecer, sem provocar a sujeição? Como exercer a autoridade sobre alguém, sem torná-lo um eterno menor, sempre dependente da ordem estabelecida ou das “autoridades”, isto é, do homem político, do superior hierárquico e dos “manipuladores”? Como exercer a autoridade a fim de produzir a liberdade em vez do poder, a autonomia em vez do condicionamento, a responsabilidade em vez da submissão?As possíveis respostas a essas questões sempre implicam, de um ou outro modo, um modelo jurídico (Canivez, 1991, p. 34). Logo, a função de mediar as aprendizagens, que cabe ao professor, deve considerar as condições sócio-morais dos alunos e a adequação dos conteúdos ao contexto em que eles vivem, para corresponder às reais necessidades de desenvolvimento de suas competências. O contexto escolar exerce um lugar significativo no que se refere à constituição do sujeito, uma vez que avalia a sua capacidade pelo desempenho nas aprendizagens, o valor da nota, e reflete as condições de convívio dos alunos na relação com as regras da instituição e com a disciplina. Corporeidade e ideologia O (...) controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que antes de tudo investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica (FOUCAULT, 1986, p. 80). Na história da humanidade, o corpo humano (e o seu sujeito) esteve no foco de eventos e acontecimentos de diferentes naturezas. No teatro, nas guerras, na dança, nos esportes, nas doutrinas religiosas e espiritualistas, na arte, enfim, nos mais diversos terrenos das relações e expressões humanas, o corpo protagonizou e sofreu assédios pelos mais diferentes interesses. Para René Descartes, o corpo estava dissociado da alma, sendo esta a substância pensante e o corpo a instância limitadora e sem interação com a sutileza do pensamento, da alma. Esta visão Dualista Cartesiana, do século XVII, foi superada pelas descobertas do campo da neurofisiologia no século XIX que, a partir da identificação de determinados fenômenos clínicos, nomeou a palavra psicomotricidade. Em 1909, Dupré, neurologista francês, a partir de estudos clínicos, contribuiu para o campo da psicomotricidade, afirmando a independência da debilidade motora dos processos neurológicos, abrindo espaços para os estudos da psicomotricidade, para além das amarras da cognição. Uma vez superada s, pelo campo das pesquisas científicas, as abordagens que dissociavam o sujeito do seu corpo e o corpo do seu sujeito, podemos insistir na dimensão simbólica como formadora do humano e responsável pelo advento da linguagem, que funda a cultura humana. Não é o homem que constitui o simbólico, é o simbólico que constitui o homem. Quando o homem entra no mundo, entra no simbólico que já está ali. E não pode ser homem se não entra no simbólico (Roland Barthes, 1983, p. 99-100). Nas relações de domínio, ocorridas pelas lutas de classes, aqueles que detêm o poder submetem os oprimidos a seus valores e às suas normas, explicitando o que lhes é ou não permitido, que se estende aos ganhos, posses, credos, expressões e oportunidades. Estes domínios se estendem também às práticas corporais, uma vez que, historicamente, as ideologias influenciaram as relações que os indivíduos estabeleceram com seu próprio corpo, através da alimentação, vestuários, práticas corporais artísticas, esportivas, de lazer e de defesa para finalidades pessoais e da pátria. Prescrições de valores e de padrões estéticos foram moldadas corporalmente no século, a partir das práticas da ginástica científica. No mesmo século, a referida prática corporal é englobada pela “educação corporal”, e se faz portadora de preceitos e normas (Carmen Soares, 1998, p.17). O corpo é o primeiro lugar onde a mão do adulto marca a criança, ele é o primeiro espaço onde se impõem os limites sociais e psicológicos que foram dados a sua conduta, ele é o emblema onde a cultura vem inscrever seus signos como também seus brasões (Vigarello, 1978, p. 9). As pretensões de formação do caráter das populações de países europeus, objetivadas na ideologia cientificista, através das teorias evolucionistas, organicistas e mecanicistas, revolucionaram os meios de pesquisa científica e da produção de bens materiais. A prática da ginástica é considerada como ferramenta fundamental para uma certa prontidão, explicitada pela estética e pelo rendimento físico, correspondendo aos valores higienistas e de trabalho produtivo, que visava atender aos princípios do capital. Não faltaram iniciativas no decorrer do século XIX de estendê-la a toda população, atribuindo-lhe valores estreitamente ligados aos interesses de consolidação econômica e política da Europa. Logo, ao selecionarmos os conteúdos para o trabalho educativo, devemos cuidar dos seus aspectos sócio-históricos, exercendo uma leitura crítica que possibilite ao aprendiz escapar de uma leitura ingênua dos fatos da atualidade. Aqui encontramos um grande desafio: como desenvolver conteúdos e objetivos sem desconsiderar as motivações, tendências e inclinações de um público cada vez mais bombardeado pela mídia de massa e a globalização, que têm degradado cada vez mais os valores humanizadores? Corporeidade e ludicidade Dentre as contribuições de Piaget para o desenvolvimento infantil, destaco as relacionadas ao jogo. No título A Formação do Símbolo na Criança , o autor apresenta estudos sobre a representação infantil, destacando o predomínio dos processos individuais da vida infantil sobre os fatores coletivos para a gênese da imitação, explicitando os estreitos laços entre corpo, movimento e cognição, a partir das etapas do desenvolvimento que descreve em sua obra. Os processos sócio-interacionais que ocorrem na ontogênese encontram nas atividades sensório-motoras o momento inicial de conhecimento da realidade objetiva, em que a criança constrói suas noções sobre os objetos e, conseqüentemente, sobre o seu próprio corpo. Na medida em que os processos de representação cognitiva, no tocante às atividades representativas ou da função simbólica, avançam sobre as formas primitivas e pré-verbais do período sensório-motor, os conhecimentos adquiridos pelas explorações corporais transformam-se – com a aquisição da linguagem, ou sistemas de signos coletivos – em conceitos ou desdobram-se em novos conceitos (Piaget, 1978, p.12). Vygotsky destaca a contribuição das aprendizagens, a partir do jogo simbólico, para o desenvolvimento das categorias do pensamento e para o aprendizado específico de relacionamento com as regras. A prática de atividades lúdicas, especificamente a partir das categorias do jogo simbólico, depende da decisão, por parte daquele que brinca, se entra ou não na brincadeira. Esta tomada de decisão pressupõe uma deliberação, uma escolha. Dentre diversos fatores, existem motivações determinadas por alguma emoção específica, algum afeto que influencie especialmente na escolha. Por uma parte, todo sentimento, toda emoção tende a manifestar-se em determinadas imagens concordantes com ela, como se a emoção pudesse eleger impressões, idéias, imagens congruentes com o estado de ânimo que nos dominasse naquele instante. Bem sabido é que quando estamos alegres vemos com olhos totalmente distintos de quando estamos tristes (Vygotsky, 1997, p. 21). Uma vez que as contribuições de diferentes campos do conhecimento – psicologia, sociologia, pedagogia, psicomotricidade, filosofia – apontam para a existência das inter-relações entre o movimento, os processos de representação simbólica, o contexto sociocultural e as emoções, é valido questionar porque durante tanto tempo a escola não se valeu da riqueza das atividades lúdicas e expressivas para o desenvolvimento cultural, social, cognitivo e afetivo de seus alunos. Alguns estudos apontavam que a brincadeira era considerada uma atividade improdutiva, por não apresentar resultados objetivos e, em muitas ocasiões, favorecer a reprodução de atitudes indesejáveis aos espaços escolares, classificados como sérios, onde a atenção e a dedicação não poderiam conviver com as atitudes e expressões decorrentes das atividades lúdicas. Estas abordagens superficiais detinham-se em algumas condutas de quem brinca e joga, subtraindo-as de todo o contexto da atividade, isolando-as dos processos de formação subjetiva e de adaptação aos contextos sociais, que toda criança e todo adolescente vivem. O que é considerado como produtivo, ou não, para as aprendizagens escolares e para a vida depende da visão de mundo dos educadores, das escolas e da sociedade. Felizmente, alguns paradigmas da educação estão sendo revistos e têm possibilitado a abertura de espaços para discussões acerca do que é fundamental para a educação de um cidadão na atualidade. As práticas educativas que consideram a unidade do sujeito que aprende, considerando os pressupostos acima analisados, devem considerar: “O quê?; por quê?; como? e para que se educa?” E, ainda, quais os conteúdos, objetivos e atividades que mobilizam o sujeito, visto por esta ótica? Conhecimento e ludicidade As expectativas do adulto sobre a inserção social da criança se apresentam de diferentes maneiras, principalmente em relação à educação escolar. Responsáveis e educadores esmeram-se, a partir de seus desejos, de suas expectativas e de suas responsabilidades, para que a criança aprenda a falar, comer, controlar os esfíncteres e, ao longo da vida, ler, escrever, namorar, formar-se, casar e trabalhar. A escola, em função de seu projeto político-pedagógico, corresponderá ou não aos anseios dos pais para o futuro de seus filhos, através de suas práticas metodológicas e culturas institucionais. A prática pedagógica tradicional pressupõe um aluno dedicado e esforçado, nos moldes do trabalho adulto, exigindo uma atenção estável, a prática dos valores e da ética institucionais, num ambiente de silêncio e imobilidade, valendo-se das exposições verbais e leituras como estratégias didáticas. Por outro lado, na literatura especializada que trata dos processos de desenvolvimento infantil, os aspectos lúdicos são considerados como fundamentais para as aprendizagens escolares. E, ao contrário da prática da maioria dos espaços educativos, sugerem um ensino dinâmico, através de vivências concretas de trabalho, promovendo espaços que privilegiam o diálogo, discussões de temas atuais em grupo, o exercício da autonomia e, fundamentalmente, o prazer de aprender. Parece, pois, necessário, ao pensar a educação pelo jogo, refletir simultaneamente sobre a educação pelo trabalho, enfrentando o preconceito que entre nós, por graves razões sociais, separa a idéia de infância da de trabalho. A dialética jogo-trabalho é indispensável à saúde de ambas as práticas: pode resgatar a liberdade do jogo e o prazer do trabalho (Heloísa Dantas, 1998, p. 112, 113). Em seu trabalho O lúdico nos processos do desenvolvimento e da aprendizagem escolar , Lino de Macedo discute a importância da ludicidade para os processos de ensino-aprendizagem, visando à reconstrução das práticas pedagógicas. Para que esta condição seja desenvolvida, o referido autor aponta cinco indicadores: Prazer funcional “Uma tarefa interessante para a criança é clara, simples e direta. É realizável nos seus tempos (interno, externo). Desafiante (envolvente). Constante (regular) na forma e variável no conteúdo. Surpreendente. Com espírito lúdico”. Desafio. Surpresa Lúdico: Surpreendente e desafiador. “Contexto de projetos ou jogos são prenhes de situações- problema”. Possível “(...) não se realizam tarefas impossíveis. Como tornar possível o impossível?” Atividades: Necessárias e possíveis. Necessárias – Do ponto de vista afetivo, não fazê-las, produz algum desconforto – sentimento de perda. Do ponto de vista cognitivo – pensável ou realizável – compreensível para o sujeito, algo faz sentido, cria demanda. “Possíveis: Pressupõe, da condição do sujeito, ter recursos internos – habilidades ou competências para a realização e recursos externos – objetos, tempo, pessoas”. “Tarefas impossíveis geram respostas evasivas, desculpas, desinteresse, adiamentos, sentimentos de culpa (...)” Simbólica Atividades motivadas e históricas. “motivadas no sentido de que há uma relação entre a pessoa que faz e aquilo que é feito”. Sensório-motora: Prazer funcional – repetição – exploração dos esquemas de ação. Simbólico: Via conceitual – imaginação – sonho – representação – faz- de-conta – metáforas e metonímicas. Construtivo “Desafio de considerar algo segundo diversos pontos de vista, dada sua natureza relacional e dialética.” Errância. “A errância é uma forma curiosa, atenta, mas aberta, de explorar alguma coisa. Construção: direção – sentido – foco – destino. “A errância não se faz de qualquer jeito, mas tem um objetivo, uma meta, que se cumpre, ainda que de forma errante” (Lino de Macedo, 2003. Impresso) Considerações finais Considerando o sujeito em sua globalidade, atualizada nas relações corporais e significativas com os outros, com os objetos e com o contexto sociocultural imediato, as atividades lúdicas, expressivas, de movimento e escolares, quando desenvolvidas em condições como as apontadas pelos indicadores categorizados por Lino de Macedo, constituem-se em poderosa ferramenta para o desenvolvimento da auto-imagem e da auto-estima. Neste aspecto, a leitura psicomotora da corporeidade dos sujeitos, pelo olhar do educador, favorece a expressão falada e corporal do aprendiz. Esta é a porta de entrada para o estabelecimento de um vínculo inicial que remeta a uma progressiva e constante cumplicidade para a mudança constante de paradigmas, baseados na metodologia educacional, no convívio social e na formação de valores. As atividades são o meio e a meta final, uma vez que é através delas que o sujeito coloca em discussão todo o seu conhecimento e conteúdos subjetivos. A partir dos encaminhamentos acima descritos, alcançamos os conteúdos previstos pelas áreas na dimensão do sujeito mais global, para além das limitações dos conteúdos e, ao mesmo tempo, extrapolando destes as suas dimensões habituais. Certamente não só as aprendizagens são alcançadas, mas também outros sujeitos ressurgem, confirmando a importância dos vínculos afetivos com os outros, reafirmando constantemente as suas competências psicomotoras e reorientando o seu olhar para o mundo ao seu redor, a partir dos novos paradigmas vivenciados. Referências bibliográficas
Notas
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Redes de convivência e de enfrentamento das desigualdades |
Antonio Eugenio do Nascimento 1 |
Os versos que abrem este artigo fazem parte da bela canção Rancho da Goiabada , escrita por João Bosco e Aldir Blanc, no final do período autoritário que teve início com o golpe militar de 1964. Nela, os autores fazem desfilar, além dos bóias-frias que não aparecem na estrofe em epígrafe, uma lista de tipos profissionais brasileiros que já não conseguem sustentar a si próprios com as parcas moedas recebidas em troca de sua força de trabalho, muito menos dar à sua prole as condições necessárias para mantê-la longe dos expedientes vis que, quase sempre, nas periferias das grandes cidades, levam os jovens às raias da delinqüência. Lá se vão os dias de um passado não muito distante, em que ouvíamos pais e mães, trabalhadores e trabalhadoras integrantes dessas categorias, pronunciarem frases esperançosas exprimindo o desejo de que seus filhos tivessem uma vida melhor. A mais comum, dita entre afagos, mas sempre com a contundência que a necessidade requeria, passava, com pequenas variações, a seguinte mensagem: estude, meu filho, pra que você possa ser alguém na vida. Com este jargão os mais velhos queriam externar a vontade de que a meninada tivesse um futuro diferente , obviamente, numa perspectiva de ascensão que somente a escola seria capaz de propiciar. No Nordeste, os meninos ainda ganhavam dois tapinhas na cabeça, seguidos da sentença imperativa: cresça meu filho, pra ir pro Rio de Janeiro! Esta forma simplória de caminhar em busca de dias melhores fez com que grande parte da população campesina fosse gradativamente se deslocando para as cidades, onde supostamente estariam as mágicas instituições ampliadoras do conhecimento, capazes de livrar os mais novos das mazelas do analfabetismo e, por conseguinte, das formas escravistas de produção que ainda hoje maculam as esferas de poder, criadas com o objetivo precípuo de combatê-las. É preciso que se diga que, por muito tempo, quase uma metade de século, o aforismo popular produziu bons resultados: inúmeros camponeses, que apostaram neste tipo de deslocamento, conseguiram levar os filhos às escolas de nível médio e superior e suas famílias a patamares mais confortáveis na pirâmide social. Na década de 80, mais precisamente em 1985, o regime autoritário chegava ao fim, levando com ele velhas práticas de mercado que seriam substituídas pelas tendências globalizantes alicerçadas no pensamento neoliberal. No caso do Brasil, o que mais se propagava eram as vantagens do estado mínimo. Um Estado leve e livre de compromissos empresariais para que os recursos, acumulados com a sangria dos impostos, fossem aplicados diretamente na satisfação das necessidades básicas da população. Portanto, era de se esperar que, ao concluirmos o processo de universalização da escola (os números mais otimistas falam em 98% das crianças matriculadas no Ensino Fundamental), a filharada das classes que aparecem na música de Bosco e Blanc não tivesse mais de se amontoar nos sinais de trânsito para as sutis formas de mendicância realizadas pelos menores limpadores de nada, malabaristas e vendedores de todos os produtos que podem ser utilizados em pequenos golpes, na velocidade que os sinais de trânsito determinam. Além da infância e da adolescência habitantes serelepes dos cruzamentos urbanos, poderíamos completar a lista com os meninos dos lixões, das feiras temáticas e livres, da prostituição, dos empacotadores clandestinos dos supermercados, do tráfico de drogas e de inúmeras atividades insalubres que são postas à disposição dos petizes que têm passagem registrada pelos bancos da escola pública brasileira. Neste ponto já podemos imaginar que: (1) a universalização da escola não veio acompanhada da qualidade que uma instituição, prioritariamente, destinada aos filhos dos setores menos favorecidos da sociedade, deve possuir; (2) o aumento dos níveis de desemprego, motivado pela entrada de nosso país em uma competição para a qual ele não estava preparado, contribuiu para o aumento do número de jovens e adolescentes que se movimenta em busca de quase nada. Uma parcela significativa deste contingente é composta por descendentes de sertanejos e “agrestinos”, que além das dificuldades de convivência, em meio à violência da cidade grande, já não possuem sequer os referenciais capazes de lhes despertar o desejo, comum aos que chegam do Norte , de, um dia, voltar à terra natal. Na cidade grande, este coletivo veio juntar-se aos afro-descendentes habitantes dos núcleos proletários e favelados, dando origem a um segmento social que, ao ser abandonado pelo Estado brasileiro permanentemente preocupado com o pagamento das dívidas interna e externa, cai nos braços das organizações não-governamentais atuantes nas lacunas deixadas pelas esferas de poder, outrora responsáveis por grande parte das políticas assistenciais. A novidade que aparece nesta discussão reside no aumento considerável de instituições que voltaram suas práticas para a implementação de atividades que têm origem no universo da arte. Os últimos 50 anos foram determinantes para a consolidação de um processo sócio-educativo que tem suas raízes fincadas nos interstícios da Escola Nova e que chegou até nós, na década de 60, através das propostas de inúmeras escolinhas de artes , que tinham como objetivo primeiro a difusão das linguagens artísticas entre as camadas populares. Seus formuladores (Anísio Teixeira, Villa-Lobos e mais tarde Augusto Rodrigues) estavam certos de que a arte era algo importante demais para ficar restrita aos domínios da classe artística que, já naquela época, ia transformando o seu amor (amadorismo) em profissão. Por esta nova concepção, todos deveriam engajar-se no estudo de um tipo de arte qualquer, inclusive os artistas. A questão que agora retomamos tem por objetivo estimular a realização de embates ideológicos sobre as formas de sedução empregadas pelas organizações não-governamentais na arregimentação desses segmentos para um tipo de atividade (trabalho artístico), que até bem pouco tempo era visto, pela sociedade brasileira, como algo proibido e marginal. Podemos limpar o campo trabalhando, em um primeiro momento, sobre o consenso de que a todos deve ser dada a oportunidade de vivência e estudo das linguagens da arte, para em seguida trazer à tona as preocupações relativas às propagandas enganosas que levam crianças, adolescentes e jovens à incorporação da máxima que os induz a acreditar que o aprendizado de uma determinada manifestação artística pode levá-los a conquistas capazes de lhes proporcionar uma vida de melhor qualidade. Por outro lado, devemos reconhecer que o trabalho desenvolvido por uma parcela significativa das instituições aglutinadas sob a chancela “de educação informal” vem, ao longo dos últimos vinte anos, produzindo frutos que poderiam chegar à escola pública e, mais facilmente, às crianças vitimadas por uma modalidade qualquer de esquecimento social: esquecidas pelo Estado, pela família, pela escola; não importando, para efeito deste trabalho, as razões dos esquecimentos que, porventura, viessem a ser apresentadas para justificar as desgraças de cada segmento. Sabemos apenas que a emergência exige a aplicação de outras e maiores formas de investimentos, notadamente nas escolas públicas que servem às camadas economicamente menos favorecidas. Mas o que precisamos fazer? Para os esquecidos, quase tudo. A escola que está posta a eles não interessa mais. Criada sob a égide dos postulados positivistas e presa à lógica utilitarista que estabelece os padrões de qualidade, a escola é, sobretudo, uma instituição orientada pelas ideologias que enfatizam a competição como instrumento de crescimento, mas ainda não encontrou a maneira de contribuir para que, a todos, fossem dadas as mesmas oportunidades. Isto faz com que, quase sempre diante do imprevisível, nos percebamos assustados com a possibilidade de aparecimento de novas modalidades de fracasso. Ao mesmo tempo, sabemos da existência de bons exemplos que poderiam funcionar como ponto de partida para novas formas de produção coletiva. A escola, notadamente a que serve às classes populares, é um imenso laboratório produtor de inúmeros experimentos: alguns fortuitos, outros intencionais, quase sempre pouco observados pelo coletivo docente. No entanto, para nossa satisfação, essa forma soberba de olhar com desdém para o conhecimento, que emerge do imbricamento entre o saber científico e o senso comum, não impede o trânsito das interferências que, mais cedo ou mais tarde, provocarão fendas na organização curricular tradicional. Por isso, é importante que nos detenhamos, primeiro, na observação dessas saudáveis rupturas, depois na construção de estratégias pautadas nos referenciais teóricos que direcionam a produção do objeto artístico, na esperança de que eles possam contribuir para a superação das dificuldades que surgem no cotidiano dos espaços formais de educação. Com isto, estaremos dando um passo significativo para a construção das redes de convivência e enfrentamento das desigualdades , objeto central desta discussão, que, mesmo sem o aval das esferas oficiais vão, aqui e ali, se constituindo para a felicidade geral. O problema que está posto nos atordoa, porque a quase totalidade das escolas por onde passamos, como alunos ou professores, elaboram os seus programas educativos baseando-se na pretensa existência de um aluno padrão ideal, cada vez mais distante da realidade. Logo, as nossas inquietações não se distanciam muito daquelas que, mundo afora, levaram inúmeros educadores à busca de alternativas que pudessem contribuir para a superação das barreiras subjetivas salpicadas no caminho daqueles que, por uma série inumerável de motivos, sofreram qualquer tipo de agressão praticado pelo núcleo social que, por princípio, deveria protegê-lo, ou pelos caprichos, nem sempre bondosos, da mãe natureza. Precisamos, no entanto, ter a consciência de que, por mais que estejamos, cotidianamente, a revirar gavetas e estantes em busca de alguma argumentação que nos ajude a dialogar com as nossas aflições relativas à educação dos setores populares, vamos perceber que parte daquilo que procuramos não reside nas páginas da literatura clássica, elaborada com a finalidade de respaldar o trabalho docente e contribuir para a melhoria de suas práticas. É mais razoável acreditar que os nossos desejos serão parcialmente satisfeitos através das vivências promovidas por algumas instituições que descobriram, quase sempre fazendo uso da seiva que emerge do conhecimento popular, os instrumentos capazes de fazer com que uma determinada situação incômoda pudesse ser contornada pelos próprios membros do grupo social afetado. Sobre este assunto, Gohn (1999, p. 7), nos ajuda com a seguinte proposição: Hoje, quando a humanidade caminha para a finalização de mais um milênio (1999), a educação tem sido proclamada como uma das áreas-chave para enfrentar os novos desafios gerados pela globalização e pelo avanço tecnológico na era da informação. A educação é conclamada também para superar a miséria do povo, promovendo o acesso dos excluídos a uma sociedade mais justa e igualitária, juntamente com a criação de novas formas de distribuição de renda e da justiça social. Neste cenário, observa-se uma ampliação do conceito de educação, que não se restringe mais aos processos de ensino-aprendizagem no interior das unidades escolares formais, transpondo os muros da escola para os espaços da casa, do trabalho, do lazer, do associativismo, etc. Com isto, um novo campo da educação se estrutura: o da educação não-formal. Ela aborda processos educativos que ocorrem fora das escolas, em processos organizativos da sociedade civil, ao redor de ações coletivas do chamado terceiro setor da sociedade, abrangendo movimentos sociais, organizações não governamentais e outras entidades sem fins lucrativos que atuam na área social; ou processos educacionais, frutos da articulação das escolas com a comunidade educativa, via conselhos, colegiados etc . Temos, inclusive, observado que este tipo de instituição, livre das amarras dos tradicionais sistemas oficiais de ensino, movimenta-se com mais liberdade em torno das estratégias elaboradas para que um determinado fim seja atingido. Uma parte deste universo é composta por entidades que fazem uso de instrumentos não convencionais para livrar a meninada dos perigos oferecidos pelas ruas das grandes cidades e das condições miseráveis em que vive. Algumas delas, fruto de iniciativas individuais em pequenos espaços para ensinamento de práticas acrobáticas, teatrais, esportivas ou musicais, outras resultantes dos financiamentos público/privados, que possibilitam a implantação de grandes centros de artes e esportes. Insere-se neste último contexto, à guisa de exemplo, a Vila Olímpica da Mangueira, no Rio de Janeiro e a Escola de Música Pracatum, situada no bairro do Candeal, que fica nos arredores de Salvador, ambas trabalhando sob a ótica de que o menino que vai bem no trato com a música, a dança ou com o esporte, normalmente, vai bem na escola. A citação de Guerreiro (2000, p. 113), sob o trabalho de Carlinhos Brown, contribui para o entendimento do assunto que estamos discutindo: A Escola Pracatum, idealizada pelo percussionista Carlinhos Brown, inaugurada no bairro do Candeal, em março de 1999, pretendia atender a duzentos jovens do bairro entre 14 e 19 anos, oferecendo, além de formação musical, cursos de alfabetização. Para Carlinhos Brown, “o que estamos fazendo no Candeal é uma revolução com elegância”. Orçada em US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares), a Pracatum conta com apoio do BNDES, da Unicef e da Fundação Vitae. Durante dois anos, a escola foi comandada por uma equipe responsável pela elaboração de uma pedagogia adequada ao contexto do Candeal e atendeu, experimentalmente, a sessenta alunos. Mas a desestruturação dessa equipe, sob a alegação de falta de verbas, impediu o pleno funcionamento da Escola, que ficou seis meses sem atividades, voltando a abrir as portas para setenta alunos. No espaço Pracatum funciona, também, o estúdio de gravação de Carlinhos Brown – A Ilha do Sapo. Além do exposto nos parágrafos anteriores, já temos vários indícios de que os alunos que se envolvem em trabalhos de natureza lúdica, artística ou utilitária caminham, com mais desenvoltura, pelos vários campos do conhecimento. O que estamos querendo dizer com isso é que a escola pública, num arroubo de progressivismo , e no afã de se colocar na defensiva contra o discurso burguês sobre as diferenciações entre o ensino oferecido às classes dominantes (produção intelectual) e os setores subalternos (trabalho braçal), esqueceu-se da importância da escola de Freinet e Makarenko, onde as oficinas sempre estiveram presentes, dando significado às atividades que a escola desenvolvia visando à alfabetização dos filhos das sociedades francesa e soviética, atordoados pelas angústias dos períodos pós-guerra. Amplia-se, portanto, o leque de interlocutores. Além de nossa aproximação com os construtores de propostas alternativas direcionadas para o fortalecimento das ações cooperativas, visando ao crescimento das redes de convivência, é importante que mantenhamos abertos os canais de diálogo com as instituições que orientam suas práticas para o trabalho lúdico, esportivo ou utilitário alicerçado em modelos capazes de promover o aparecimento de uma sociedade mais fraterna e solidária. Satisfazem a essas condições, dentre muitos outros, e além dos já citadas nos parágrafos acima: a Trupe Levantando a Lona, uma escolinha de circo que trabalha com os meninos e meninas do Morro do Cantagalo, ligada ao Grupo Cultural Afro-Reggae, e o Projeto Dois Toques, ligado à Fundação Gol de Letra, ambos sediados no Estado do Rio de Janeiro. O Grupo Cultural Afro-Reggae ganha corpo a partir de 1993, mais precisamente na Favela de Vigário Geral, um pouco antes da grande chacina cometida pela polícia carioca, na qual perderam a vida mais de 20 trabalhadores. Trata-se de uma organização não-governamental que atua nos bolsões de pobreza da cidade grande. Atualmente o grupo está estruturado em quatro grandes comunidades: Vigário Geral, Morro do Cantagalo, Cidade de Deus e Parada de Lucas e conta ainda com trabalhos em vários outros pequenos núcleos habitados pelos segmentos menos favorecidos. Afora o quesito dimensão e volume de atendimento, podemos dizer que o trabalho realizado pelo Grupo Cultural Afro-Reggae é filho legítimo das gráficas escolares de Freinet, também presentes nas atividades desenvolvidas pelos Centros de Interesses da Ilha de Cuba e pelas Colônias de Ressocialização de Makarenko, na antiga União Soviética. São formas distintas de lidar com a educação dos filhos das classes menos favorecidas, porém alicerçadas nos mesmos princípios e visando à conquista dos mesmos objetivos: proporcionar aos filhos do proletariado um leque de oportunidades capaz de levar a sociedade à melhoria dos padrões de qualidade de vida, trabalho e lazer. Vivemos no mundo da bola, somos o país de futebol e por isso achamos natural que todos os meninos, em algum momento de suas vidas, tenham sonhado em ser um Ronaldinho não importando, para efeito dos sonhos, se o moço é gaúcho ou carioca. O que todos querem mesmo é um dia entrar no maior estádio do mundo ovacionados pela torcida de seu time, comprar uma casa para a mãe e um carro vermelho novinho em folha para desfilar entre os amigos da pobre infância, dos quais, todos os que chegam lá, dizem jamais esquecer. Tamanha unanimidade fez com que as mais antigas propostas de ocupação do tempo da meninada, nos horários não preenchidos pelas escolas, partissem de agremiações ainda não contaminadas pela febre das ONGs, que surgiram com os mesmos ventos impulsionadores do fenômeno da globalização. Do futebol para os outros esportes tudo aconteceu com certa rapidez. Além da ocupação do tempo, uma boa parte dos responsáveis, mesmo não explicitando, tolerava o doce ócio das crianças, na crença enrustida de que, um dia, a natureza lhes devolvesse um Romário, um Tafarel ou um Oscar, se o esporte que o menino escolhera para praticar tem a cesta como meta, ao invés do gol. Multiplicavam-se, portanto, as escolinhas de esportes, uma boa parte delas assumida pelos estados e municípios, certos estavam os seus dirigentes de que reassumiam as funções abandonadas com a história do estado mínimo nacional. Dentre as propostas interessantes que surgem do mundo da bola, uma delas vem na contramão, falando em cultura, cidadania, transformação da realidade. Trata-se do Projeto Dois Toques da Fundação Gol de Letra, uma instituição criada por dois prestigiados jogadores de futebol que, até bem pouco tempo, encantavam os olhos da torcida brasileira: Leonardo, dono de um jogo vistoso, homem falante, excelente articulador e Raí que, durante toda a sua vida esportiva, caracterizou-se pela disciplina, pelo comportamento ético e pelas paixões que despertava nas camadas femininas da sociedade. O que pouca gente sabe é que, além de todas as virtudes inerentes à profissão, os dois ainda arranjaram um tempo para conversar sobre uma coisa que nós fazemos todos os dias: construir estratégias para que a sociedade avance em busca de dias mais promissores. Queremos, no entanto, deixar claro que, apesar do número significativo de projetos que partem da iniciativa de grupos privados, setores religiosos ou pessoas físicas, insistimos em responsabilizar o Estado pela falta de cuidado para com a educação dos setores sociais menos aquinhoados. O que essas instituições estão apontando, cada uma à sua maneira, são algumas alternativas que podem proporcionar à filharada das classes populares uma vida mais digna. Ao Estado cabe a tarefa de multiplicar as iniciativas que deram bons frutos, onde quer que haja necessidade. Referências bibliográficas
Notas
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