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Afeto em AVA

Becht (2001) menciona que integrando o reconhecimento e/ou síntese de fenômenos afetivos a sistemas computacionais aplicados à Educação, além de tornar mais eficiente as interações humanas nesses sistemas, é possível aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem.

Dentre os diversos tipos de fenômenos afetivos (tais como: emoção, estado de ânimo, preferência, atitude, disposição afetiva ou traço de personalidade e postura afetiva), as emoções são explicadas segundo as diversas perspectivas psicológicas (Fisiológica, Evolucionária, Social-Construtivista-Construcionista, Comportamentalista e Cognitivista).

Richard Lazaraus (1984, 1991ª, 1991b), Klaus Scherer (1994ª, 1994b, 1997) e Bernard Weiner (1986) fornecem a base teórica para a discussão da perspectiva Cognitivista. Para eles, a emoção é decorrente de uma atividade cognitiva que dispara diversas outras atividades nos mais distintos componentes do organismo. Lazarus menciona que é necessária uma compreensão cognitiva do bem estar pessoal, sem a qual não há razão para uma resposta emocional. De fato, a avaliação cognitiva que o sujeito faz das circunstâncias que experimenta cria as condições da vivência emocional. Assim, a emoção é gerada a partir da avaliação cognitiva e do significado histórico-pessoal ou da cultura que lhe é conferida. Isto é, um evento pode ser o mesmo para uma ou mais pessoas, porém se a atribuição emocional for diferente, a emoção também será.

Na corrente Evolucionária, os autores Carroll Izard (1989, 1991), Paul Ekman (1992) e Jaak Panksepp (1982, 1994) fazem estudos biológicos sobre as emoções. Izard percebeu que bebês, embora possuam limites emocionais, respondem a certos eventos emocionais de forma não cognitiva. Ou seja, de modo automático, inconsciente e mediada por estruturas subcorticais (1989). Para Panksepp, as emoções surgem de circuitos neurais geneticamente construídos. Enquanto que Ekman faz uma avaliação social e cultural para definir as emoções básicas, ou aquelas que ocorrerem de forma automática e involuntariamente. Embora esses autores concluem que a biologia está no centro causal das emoções, há o reconhecimento das contribuições cognitivas, sociais e culturais para o entendimento das emoções.

As emoções podem ser classificadas em primárias (básicas), secundárias (sociais) e de segundo plano (estados de ânimo). Elas servem de interface entre os meios interno e externo de um sujeito (Scherer, 2005). São elas que conduzem a forma como o sujeito se comporta e se expressa verbalmente e com o corpo nos mais diversos ambientes, inclusive no modo como usa as ferramentas de um ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

As emoções primárias foram amplamente discutidas por Ekman (1994) no que tange às diferenças culturais. Servem para garantir a sobrevivência e são encontradas em qualquer cultura. Não existe um número exato delas. Ekman (1999) indica a existência de seis: Medo, Raiva, Tristeza, Alegria, Surpresa e Aversão.

As emoções secundárias são adquiridas ou aprendidas a partir das primárias, à medida que se vivencia uma série de situações cotidianas e seus desdobramentos. Por exemplo, no ambiente de aprendizagem, um aluno pode se deparar com sentimentos adversos (decepções, frustrações, sentimentos de culpa e vergonha, ciúme, inveja, etc.) ou positivos (entusiasmo, interesse, orgulho, etc.). A valência das emoções (positiva ou negativa) depende dos eventos disparadores (internos ou externos) e das crenças e desejos para obter os resultados esperados.

Quase sempre, o emprego do termo emoção relaciona-se tanto às emoções primárias quanto às secundárias. A rigor, contudo, as primárias são as que se manifestam de modo espontâneo e súbito, sendo caracterizadas por sua alta intensidade. Já as secundárias se fazem sentir por mais tempo, caracterizando-se por reações bem marcadas.

Damásio (1996) propõe a noção das emoções de segundo plano (ou estados de ânimo). Essas emoções, originadas a partir das primárias e secundárias, são de caráter ondulatório e difuso, podendo ser de causa desconhecida e durar dias. “Muitas vezes, exprime situações em que uma emoção, ou várias delas, permanecem latentes, atuando em background afetivo” (DAVIDSON, 1994). Acompanham o sujeito por um período bem maior do que as secundárias, muitas vezes fazendo-se notar no comportamento não-verbal (desenhos, gifs, símbolos...).

Tanto as primárias quanto as secundárias e as de segundo plano afetam o processo cognitivo. Porém, as de segundo plano são as que mais influenciam na tomada de decisão. Há evidências significativas da influência dos estados de ânimo sobre o conteúdo da cognição (o que se pensa), tanto quanto sobre o processo da cognição (como se pensa). As emoções estão sujeitas a um monitoramento mais explícito (FORGAS, 2000), isto é, são facilmente reconhecidas. Acredita-se que as emoções repercutem na ação imediata, enquanto que os estados de ânimo influenciam no desenvolvimento cognitivo.

Neste estudo, consideram-se os estados de ânimo ser/estar satisfeito/insatisfeito e animado/desanimado em AVA. Cada estado de ânimo é formado por uma família afetiva (por exemplo, estar satisfeito significa estar alegre, feliz, contente, etc. pelo sucesso obtido no processo de aprendizagem).

Os AVA são sistemas abertos, desenvolvidos para o gerenciamento do ensino e aprendizagem via web, onde os participantes interagem e evoluem o tempo todo. Além disso, atuam em um espaço de ordem e desordem, de cooperação e colaboração, princípios fundamentais no processo de aprendizagem (Behar et alli, 2005). As ações dos sujeitos que acontecem nos diversos recursos tecnológicos disponibilizados nos AVA e a expressão verbal e não-verbal manifestada nesses ambientes podem favorecer o reconhecimento da afetividade.

No caso de um AVA, os fenômenos afetivos manifestam-se voluntária ou involuntariamente nas ferramentas síncronas e assíncronas ou na forma como o sujeito se comporta no ambiente. Dependendo do tipo de ferramentas de comunicação que um AVA suporta, o reconhecimento de fenômenos afetivos pode ser feito através da intonação e palavras da fala (no uso de webconferência) e da grafia (escrita, desenhos, pinturas, etc.) em fóruns, diários de apendizagem, editores de desenho, etc. Alguns recursos do AVA, tais como o número de vezes em que o sujeito acessa o ambiente, o tempo que permanece numa funcionalidade, se solicita ou não ajuda, etc., podem informar o seu comportamento no uso das mais diversas ferramentas.